Minha Blusa Rosa Rosa

Minha Blusa Rosa Rosa                                               Conceição A. Giacomini Soares 

            Há dias em que a cor define tudo. Hoje, por exemplo, havia acordado bem. Um bom banho, um café da manhã nutritivo e balanceado, escolha da roupa desejada. Ainda mais agora, que a minha dieta está funcionando e eu posso usar o que der vontade, sem restrições quanto às cores. As mais escuras, dão a impressão de afinar a silhueta e as mais claras, o contrário. Que paranóia esta! E nós caímos direitinho na rede dos consumidores dependentes… Num corpo magrinho, qualquer roupa fica maravilhosa. Eu quero ver uma roupa se portar divinamente, em um corpo cheio de pneus e irregularidades! Enfim, pacientemente, em meu guarda-roupa, repousava uma blusa rosa rosa, novinha
em folha. Costurei aquela seda fininha e transparente, leve, maravilhosa, com muito cuidado e atenção, pois, na verdade, era um retalho perdido entre as possibilidades do ano passado. Um retalho que sobrou de uma roupa de bailarina. Mais um dos meus afazeres para manter o pagamento das contas em dia, além de driblar um nível suportável de conforto familiar desejado.

            Talvez, eu esteja errada neste negócio de psicologia na Educação de minhas filhas. Para elas, eu compro tudo melhor e mais interessante, muito mais do que posso. Para mim, sempre transformo os retalhos que me restam. Idiotice a minha. Estou lembrando para as minhas filhas amadas, que o meu valor, o meu gosto, pouco importam. Posso usar qualquer coisa e tudo bem. Confesso que nunca me importei com isso. Não me preocupo com a moda. Sei que dou o maior prejuízo para essa modalidade de comércio, mas o que fazer? Costumo me convencer de que, quem faz a minha moda sou eu mesma. Vestiu bem, estou feliz da vida e deixo o povo falar, comentar e morder os lábios… Pura enganação comigo mesma. Fico imaginando, se tivesse um bom salário, uma carreira sólida e reconhecida, eu iria comprar retalhos por quilo, sentar à frente de uma máquina de costura e “sacramentar” qualquer peça de roupa para um evento significante, ou para o meu dia-a-dia corrido e sofrido, diante de muitas salas de aulas… Ah, que delícia, seria entrar numa loja do shopping, ver, gostar, experimentar, pagar sem dores na consciência e levar para casa, com muita naturalidade. Um ato social comum e prazeroso. Vamos, Conceição, acorde!

            Voltando para o dia de hoje. Um dia bem cor de rosa, resolvi estrear minha linda blusa rosa, esvoaçante, de seda pura! Estava me sentindo ótima, de bem com a vida, apesar da conta bancária estourada, incertezas das aulas no próximo ano, etc… Um jeans curto, uma sandália altíssima, acessórios da cor da rosa inspirada no mesmo dia. Desfilei pela casa, tentando me arrumar e aí, começaram os comentários das minhas filhas:”_ Mãe, pelo amor de Deus! Não está combinando, esta blusa!” Lutei contra os argumentos, afinal, eu queria usar aquela blusa e pronto. Saí de manhã, tudo bem. À tarde, a “coisa pegou” entre nós três:” _Mãe, você está ridícula! Está todo mundo dando risada de você!” No começo, eu procurei brincar, entrar no jogo delas, mas não conseguiram parar no momento certo e adequado. Assim continuaram o caminho todo, acumulando “elogios” a respeito de meu gosto, de minha paciência e de minha aparência…

            Já estávamos na rua, quando o “saco” transbordou e eu parei, no meio da multidão passando por todos os lados. E, exibindo o maior ar de desprezo, despi aquela blusa de mim, assim como se a vida se resumisse apenas naquele episódio desesperado… É claro que não havia como usar aquela seda transparente demais, sem outra blusa por baixo. O tecido era apenas um adorno dos deuses. Então fiquei assim, básica, simples e neutra. Tive uma vontade enorme de rasgá-la em mil pedaços, só para escandalizar o meu dia mesmo, no entanto, me contive. Afinal, foi tão difícil costurá-la…

            “_Mãe, pirou?” Sim, pirei para sempre… Entendi muitas coisas neste famigerado espaço curto de tempo. Uma delas, e a mais importante pra mim: O iceberg é maior, muito maior do que eu conseguia imaginar… A ponta, aquela parte que fica exposta, acima da água gelada e cruel, esta sim, parecia tão insignificante! Na verdade, foi apenas, para me mostrar o monstro escondido, disfarçado, camuflado: Continuo sendo um ser que compra e paga, que sente, nunca. Que vive, jamais. Que morre, talvez. Triste a minha realidade. A minha indesejada blusa cor de rosa rosa, mostrou-me o quanto valho neste planetinha de tantos e de ninguém…

            Não a abandonei, não, é claro. Amanhã, voltarei a usá-la. Ela, uma porcaria de uma peça de roupa, se tornou o meu desafio. As opiniões de minhas filhas adolescentes, são muito importantes para mim, no entanto, eu sou o que sou, independente da cor de roupa ou o tipo de acessórios explorados. Tenho que acreditar nisso. Que o ser humano tem suas diferenças sim, sua criatividade credenciada em experiências de vida. Não consigo aceitar que um “bando” de estranhos profissionais, ditos donos das tendências da moda, venham invadir o meu eu assim, de uma forma cruel e medonha. Deixem-me usar o que eu quiser, quando me for conveniente e do jeito que desejar! Seria o paraíso para a minha alma artista…

Sobre Conceição Giacomini

Minhas informações biográficas se resumem num poema: Auto-retrato Conceição A . Giacomini Soares Sou sete mulheres em mim. Sete personagens de um ser. Sete vezes quis me perdoar, Percebi que o perdão era ilusão. Minha rosa interior, voz espiritual, Levanta bandeira, pede passagem. Quer me orientar, nas lições da vida, Porém, às vezes, endureço meu coração. A costureira ,que une figurinos, Economiza paixões, entorpece tons. Emaranha-se nas linhas do caminho, Nada a faz desistir das curvas de risco. A amante sonhadora, imagina distante, Representa no palco da existência. Um sabor de torta de maçã nos lábios, Uma fragrância de sândalo, debaixo dos lençóis. A adolescente com jeito de revolta, Sente-se só no mundo, que não a aceita. Só, na multidão de personalidades distintas. Dança ao som das vozes do coral italiano. Uma jovem amena, um futuro marcado. Tudo faz no alcance do sol, seu destino. Baila até para as estrelas, e as emociona. Age, atreve-se, entusiasma-se, evolui. A executiva solitária, caminha pelos corredores. Executa as leis da sobrevivência abastada. Ganha aplausos, torcedores, conquistadores. Porém, ninguém a conhece, nem a compreende. Minha realidade me acorda, me atravessa. Sou o que sou neste chão. Professora, mãe. Tentativa de escritora, que insiste em vão. Subvive através de antigas lembranças. Sou uma equipe de responsabilidades. Algo em comum: a mesma habitação. Este invólucro carnal me limita. E então rebelo-me, e multiplico-me. Nesta multiplicidade, sinto-me inteira, Sem divisão, nem subtração. Assim, eu prossigo por esta estrada. Todas são os caracteres do meu texto. Este texto, sem previsão de se concluir. Na verdade, não concluirei tão cedo. Aqui, inseri apenas meu nascimento, E agora, esta expansão, que me alucina. Expandem feito fragmentos de estrelas, Que ainda não morreram, nem caíram. Ou talvez, os desejos de um deus pequeno Aquele deus amanhecido em mim mesma.
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