Égua de Charrete

Égua de Charrete                                   Conceição A. Giacomini Soares 

            Caminho, todas as manhãs, pelas ruas desta cidade movimentada, por algumas atitudes humanas; estática por outras atitudes humanas, mais que humanas. Tanta humanidade assim, me fez lembrar de um episódio ocorrido hoje. Chorei copiosamente, encostada em um poste gélido de cimento, meu cúmplice da cena grotesca. É sempre assim: todas as vezes em que vejo uma charrete sendo puxada por uma égua, sob o estalar de um chicote, tenho vontade de passar o “animal” sentado no banquinho confortável, para o cabresto e pedir para a égua usar os seus direitos de retorno… Como se sentiria um ser dito “humano”, sendo conduzido, chicoteado e subjugado por outro ser dito “irracional”? Por que ainda há homens que ainda não entenderam o papel dos animais em nossas vidas? Não sabem que devemos protegê-los sempre e respeitá-los, como parceiros de nossas conturbadas existências?

            Na verdade, aquilo me levou pelos caminhos análogos do sentimento inesperado… Senti-me desolada, feito aquela égua. Cansada, suada, subnutrida, fraca, desprovida de dignidade, sem escolhas. O condutor: o Destino. O chicote: as dificuldades. E então a revolta estava completa: “_Vamos, ser imprestável! Ande rápido! Nada de olhar para os lados, ou para trás…” O suor do cansaço e os ossos se exibindo! Nada disso comove o condutor. O chicote arde no dorso machucado por tanta demência desenfreada pelas dificuldades, através dos caminhos da vida. Estradas repletas de pedras, sem tempo para se desviar. É pisar, machucar e seguir em frente assim mesmo. “_Vamos, animal insolente! É para frente! Não adianta virar na próxima esquina… Será ainda pior!”

            Ah, meu Deus! Ainda pior? Ter o poder de escolha é atributo humano, porém, cada vez que fazemos uma opção infeliz, somos castigados e o chicote dança no ar até nos atingir as costas… Uma parada para um descanso, uma água? Observar as flores, as árvores? Não!  Para que, se o objetivo é a chegada num lugar desconhecido?  Chegar e morrer? Sofrer dores e pudores até que o relógio do tempo pare e somos obrigados a parar também. Tudo no compasso! Nada de enganos e desenganos. Não há tempo…

            E ainda, viajando pelas possibilidades infinitas do ser, imagino, se a coitada, porém viva, égua daquela charrete, num momento de puro instinto, for deixando excrementos em frente ao condomínio fechado por muros e energia elétrica! Será crucificada pelo poder dos poderosos. Afinal, iria sujar os pneus brilhantes dos confortáveis meios de transportes, de quatro rodas… Poderiam, égua e condutor-destino, serem enquadrados num código penal qualquer, por desrespeitarem o meio-ambiente, ou talvez o ambiente dos privilegiados…

            Por tudo isso, não consegui estagnar o meu excremento-manifesto-revolta. Se mexi em algo proibido, cansado e indecente, sinto pelos tempos, minhas lágrimas despejadas, capazes de limparem os dejetos deixados para trás… Se, no entanto, não forem suficientes, chamarei a égua, alojada dentro de mim e a farei se libertar das correias, do chicote, do cabresto. De que maneira? Agarrando o chicote com os dentes, da próxima vez que ele estalar, e assim, transformá-lo em flores para encantar o meu condutor e disfarçar a visão do meu Destino.  Ele, certamente, sorrirá para mim, num ato de puro desencontro e assim, quem sabe, me livrará das pressões-correias, enraizadas por tantas décadas de marcação evidenciada. O cabresto-visão-limite cairá naturalmente e meus horizontes se ampliarão em todas as direções. Poderei caminhar entre os mortais, fingindo a imortalidade, até que aquele relógio das horas finitas, finalmente se finde, para que eu passe, sem maiores cicatrizes para a próxima dimensão… 

Sobre Conceição Giacomini

Minhas informações biográficas se resumem num poema: Auto-retrato Conceição A . Giacomini Soares Sou sete mulheres em mim. Sete personagens de um ser. Sete vezes quis me perdoar, Percebi que o perdão era ilusão. Minha rosa interior, voz espiritual, Levanta bandeira, pede passagem. Quer me orientar, nas lições da vida, Porém, às vezes, endureço meu coração. A costureira ,que une figurinos, Economiza paixões, entorpece tons. Emaranha-se nas linhas do caminho, Nada a faz desistir das curvas de risco. A amante sonhadora, imagina distante, Representa no palco da existência. Um sabor de torta de maçã nos lábios, Uma fragrância de sândalo, debaixo dos lençóis. A adolescente com jeito de revolta, Sente-se só no mundo, que não a aceita. Só, na multidão de personalidades distintas. Dança ao som das vozes do coral italiano. Uma jovem amena, um futuro marcado. Tudo faz no alcance do sol, seu destino. Baila até para as estrelas, e as emociona. Age, atreve-se, entusiasma-se, evolui. A executiva solitária, caminha pelos corredores. Executa as leis da sobrevivência abastada. Ganha aplausos, torcedores, conquistadores. Porém, ninguém a conhece, nem a compreende. Minha realidade me acorda, me atravessa. Sou o que sou neste chão. Professora, mãe. Tentativa de escritora, que insiste em vão. Subvive através de antigas lembranças. Sou uma equipe de responsabilidades. Algo em comum: a mesma habitação. Este invólucro carnal me limita. E então rebelo-me, e multiplico-me. Nesta multiplicidade, sinto-me inteira, Sem divisão, nem subtração. Assim, eu prossigo por esta estrada. Todas são os caracteres do meu texto. Este texto, sem previsão de se concluir. Na verdade, não concluirei tão cedo. Aqui, inseri apenas meu nascimento, E agora, esta expansão, que me alucina. Expandem feito fragmentos de estrelas, Que ainda não morreram, nem caíram. Ou talvez, os desejos de um deus pequeno Aquele deus amanhecido em mim mesma.
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Uma resposta a Égua de Charrete

  1. Roque Barros disse:

    Meus parabéns! Esta história emociona, ensina e também diverte…

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