Julinho era um menino saudável e esperto. Nascido e morando na roça com seus pais e irmãos, seu espírito irrequieto sonhava com a vida na cidade.
Com sete anos entrou para a Escola e teve então a oportunidade de conhecer outros meninos da sua idade e toda a gama de atrativos lúdicos com que sempre sonhara.
Como a distância da sua casa até a cidade era de apenas de 2,5 kms. – “um tiquinho ” – como dizia seu pai, logo começou a ir e vir sozinho. Vivo e inteligente, começou a chegar mais cedo na cidade, com maior tempo para aprender todas as brincadeiras e jogos dos meninos da sua idade.
Os brinquedos variavam de acordo com a época. Ora era o pião, rodando como simples brincadeiras ou apostando – a sério – na cela. No mês de agosto era o papagaio que enfeitava e coloria os ares. No tempo da colheita do pinhão era este fruto jogado e disputado nas ruas. No restante do ano era a bolinha de vidro, hoje chamada de bolinha de gude.
Inteligente e determinado aplicou-se em se exercitar em todas as brincadeiras que aprendera. Em casa usava todo o tempo disponível para treinar nos brinquedos e jogos da época. Queria ser o bom e ganhar sempre. Fruto de tanto treinamento tornou-se exímio jogador de bolinha. Fosse na biroca ou no triângulo, era sempre o vencedor.
Percebendo e se convencendo da sua superioridade no jogo da bolinha, somente jogava – a sério – . Era começar a jogar e seus bolsos ficavam logo cheios.
Seu pai, pessoa simples e que sempre vivera na roça, tinha princípios rígidos. Detestava ver meninos jogando bolinha. Para ele, aquela brincadeira era uma perda de tempo e coisa de menino de rua que não tem o que fazer. Por esta razão sempre admoestava o seu filho Julinho que, em casa, vivia sempre com as bolinhas e jogando sozinho.
Num desses dias de Feriado Nacional, o pai do Julinho tinha que resolver um negócio na cidade. Por uma dessas coincidências do acaso, convidou o Julinho para ir com ele a cidade. Disse-lhe então o pai: – Julinho, hoje você vai comigo até a cidade. Tenho que realizar um negócio já combinado e você me espera na casa do Zé do Tote que é seu amigo.
Tão logo seu pai se afastara, Julinho ficou pensativo. O que faria enquanto esperava seu pai? Sua primeira idéia foi jogar bolinha. Mas como jogar se não tinha uma só bolinha? Lembrou-se então que em seus bolsos havia uma moeda de pequeno valor. Era pequeno o valor, mas dava para comprar uma daquelas balas de puro açúcar e em forma de vela e que, em uma das extremidades, tinha uma bolinha. Estava resolvido o problema.
Comprou a bala, desembrulhou-a, tirou a bolinha e lá foi o Julinho se juntar aos meninos que ali estavam jogando.
Seu jeito simples de menino da roça e com cara de inocente não amedrontou nenhum daqueles que ali jogavam.
Começou jogando na biroca e logo foi para o triângulo, onde havia a possibilidade de ganhar mais bolinha em cada partida.
O tempo passou despercebido e os bolsos do Julinho já estavam cheios. Já não havia mais lugar para guardar tanta bolinha. Julinho pensou em parar de jogar, esconder as bolinhas na casa do seu amigo Zé do Tote, lavar as mãos e esperar o seu pai que poderia chegar a qualquer momento. Entretanto, apesar da sua pouquíssima idade, já sentia a terrível ganância dos adultos e continuou jogando.
Quando estava pensando em parar de jogar, pois seus bolsos já não comportavam mais nenhuma bolinha, chega, de repente, o seu pai que, de longe, o avistara todo sujo e com os bolsos estourando de tanta bolinha. Bravo e nervoso com o seu filho que o desobedecera, gritou apenas:- “seu porco e sem vergonha, jogue ao chão tudo o que tem nos bolsos e vamos embora”.
Envergonhado, triste, humilhado e sem poder esboçar qualquer resistência, Julinho obedeceu simplesmente e ainda teve que sofrer a vergonha e o desgosto de ver a tamanha alegria dos seus antes adversários, e que agora festejavam a própria derrota.
Era o dia dos PERDEDORES. Perderam e levaram.
Gostei do Julinho,menino inteligente e obediente..
Ele entendeu que perder é também ganhar.
O que ele precisava já tinha com ele.A técnica
de jogar bem.Estava pronto para a Vida.
Você me entendeu?Narciso… Zil
OI, Narciso!
Que bom tê-lo com a gente!…
Essa crônica me lembra um episódio do passado…
Como dizia a pequena Isa, “é tão fácil ser criança… como deve ser complicado ser adulto”…rs…
Seja bem vindo!!
Bonita crônica que nos conduz à reflexão “quem ganhou”, “quem perdeu”.
Eu acho que todos nós já fomos um pouco o Julinho…quantas brincadeiras (agradáveis) tivemos que parar para ajudar em outros afazeres (não pouco agradáveis)…e quantas reprimendas por causa de bolinhas, pião, jogo de bolas…
Me fez lembrar de um menino que colecionava revistas e pintava os quadrinhos das que vinham preto e branco – com base em algumas que já vinham coloridas. Um dia desobedeceu sua mãe e perdeu toda a sua coleção. Foi um sentimento muito dolorido e uma grande lição…